Diabetes gestacional: O que é, sintomas, como tratar e o que comer

Diabetes mellitus é uma doença caracterizada pela hiperglicemia, ou seja, por níveis altos de açúcar no sangue, que persistem em diferentes ocasiões, e podem ser causados pela deficiência na produção ou ação de insulina (hormônio responsável pela redução do açúcar no sangue), ocasionando complicações para a saúde a longo prazo.

Os fatores que causam os principais tipos de diabetes mellitus podem ser genéticos, biológicos ou ambientais, mas ainda não são totalmente conhecidos.

Em 2015, a Federação Internacional de Diabetes estimou que 8,8% da população mundial com 20 a 79 anos de idade, o que corresponde a 415 milhões de pessoas, vivia com diabetes. O aumento do número de pessoas com diabetes está associado a rápida urbanização que levou à um padrão alimentar menos saudável, composto por produtos industrializados, ricos em sal, gorduras ruins e, especialmente, açúcar, combinado à um padrão de vida sedentário.

Tipos de Diabetes Mellitus

Há dois tipos principais de diabetes mellitus. Vamos entender melhor?

Diabetes Mellitus Tipo 1

Com predisposição genética, no diabetes mellitus tipo 1, o próprio sistema imunológico (o nosso sistema de defesa) ataca as células do pâncreas, o órgão que produz a insulina, tornando a sua ação deficiente. Esse tipo de diabetes é mais comum em crianças e adolescentes.

Diabetes Mellitus Tipo 2

Essa doença tem origem complexa e multifatorial, mas costuma ocorrer a partir dos 40 anos de idade, apesar de ser cada vez mais comum entre crianças, adolescentes e adultos jovens. Tem forte influência da herança familiar e contribuição significativa dos hábitos da dieta e a inatividade física.

Um outro tipo de diabetes que se manifesta durante a gravidez é o diabetes gestacional, definido pela Organização Mundial da Saúde, como uma intolerância à glicose (açúcar) de gravidade variável, que se inicia durante a gestação e não preenche os critérios de diabetes mellitus franco.

Diagnosticado no período da gravidez, o diabetes gestacional pode persistir ou não após o parto e se trata do problema metabólico mais comum na gestação atingindo até 25% das gestantes, representando o aparecimento da diabetes mellitus tipo 2 durante a gravidez.

Saiba como identificar o diabetes gestacional, seus sintomas, como tratar e o que comer quando essa alteração do metabolismo se apresenta e assim, ter uma gravidez saudável e sem sustos!

Como identificar o diabetes gestacional

A principal diferença entre o diabetes mellitus franco na gravidez e o diabetes gestacional, é que este último consiste no aumento dos níveis de glicose no sangue diagnosticado pela primeira vez durante o período da gestação.

A gravidez por si só aumenta o risco de hiperglicemia, pois a alteração dos hábitos alimentares, das atividades físicas, do estado emocional e as mudanças hormonais, que propiciam o desenvolvimento adequado da placenta, geram alterações no metabolismo da glicose e nas necessidades de insulina.

Geralmente, o diagnóstico do diabetes gestacional é feito através de exames que submetem o organismo à uma grande carga de glicose durante o segundo semestre de gravidez. No entanto, na primeira consulta pré-natal, acompanhamento imprescindível que toda gestante deve realizar assim que descobre a gravidez, é solicitada a glicemia de jejum. Se o valor encontrado for maior ou igual a 126 mg/dL, o diagnóstico pode ser de diabetes mellitus franco na gravidez. Se, porém, a glicemia em jejum for maior ou igual a 92 mg/dL e menor que 126 mg/dL, o diagnóstico pode ser de diabetes gestacional.

Tanto o diagnóstico de diabetes mellitus franco na gravidez quanto o de diabetes gestacional deve ser confirmado com uma segunda dosagem da glicemia de jejum. Peça ao seu médico repetir os exames no segundo trimestre e assim por diante!

Quais são os fatores de risco para diabetes gestacional? E os sintomas?

Entre os fatores de risco para desenvolver o diabetes gestacional estão:

  • Idade materna avançada;
  • Sobrepeso, obesidade ou excesso de ganho de peso na gravidez atual;
  • Deposição central excessiva de gordura corporal;
  • História familiar de diabetes em parentes de primeiro grau;
  • Crescimento excessivo do feto;
  • Líquido amniótico em excesso;
  • Pressão alta e pré-eclâmpsia;
  • Antecedentes obstétricos de abortamentos de repetição, malformações, morte fetal ou neonatal;
  • Síndrome de ovários policísticos;
  • Baixa estatura (menos de 1,5 m).

Todas as gestantes devem passar pelo rastreamento de diabetes gestacional, mas especialmente as que apresentarem um ou mais dos fatores de risco acima devem estar atentas, já que durante a gravidez podem não ocorrer os sintomas de diabetes, ou estes podem ser facilmente confundidos com sintomas comuns em uma gestação, como: cansaço excessivo e aumento no volume e frequência da urina, e de maneira silenciosa provocar complicações que podem ser graves à mãe e ao bebê, quando não são diagnosticados precocemente e tratados de forma adequada.

O controle apropriado da glicemia pode resultar em maiores chances de peso normal ao nascimento, crescimento cardíaco e adequado funcionamento das válvulas do coração, já que crianças filhas de mães com diabetes gestacional com controle inadequado da glicemia podem apresentar alterações no coração.

Um acompanhamento pré natal falho pode aumentar os riscos de complicações, bem como os seus efeitos tanto para a mãe, quanto para o bebê, antes e depois do nascimento. O diabetes gestacional aumenta a probabilidade de desenvolvimento de diabetes mellitus tipo 2 para a mulher após o parto e, a cada gestação, aumentam também os riscos dos bebês desenvolverem diabetes.

Como tratar e controlar o diabetes durante a gravidez

Um bom acompanhamento do diabetes gestacional deve incluir: controle metabólico eficiente, dieta, exercícios físicos e medicação, além de um pré natal realizado por uma equipe multiprofissional especializada.

O tratamento inicial do diabetes gestacional consiste em orientação alimentar que permita ganho de peso adequado e controle metabólico realizado através do monitoramento das glicemias capilares, aquelas medidas da glicemia realizadas na pontinha do dedo, especialmente nas gestantes que usam insulina.

Após 2 semanas de dieta, se os níveis glicêmicos permanecerem elevados, deve-se iniciar tratamento via medicamentos. O crescimento do feto e sua circunferência abdominal são critérios utilizados como alternativa para a decisão de iniciar ou não o tratamento com insulina.

Alguns medicamentos de uso oral como a metformina e a glibenclamida também podem ser opções na terapia do diabetes gestacional, pois apesar de ultrapassarem a barreira da placenta, não demonstraram riscos ao bebê até o momento. Outros medicamentos anti-diabéticos de uso oral são contraindicados na gestação.

A prática de exercícios na gestação também traz diversos benefícios como a redução da glicemia, a redução do ganho excessivo de peso materno e a diminuição da incidência de excesso de peso fetal e por isso é recomendada para todas as gestantes diabéticas, na ausência de contraindicações.

As mulheres que realizavam exercícios previamente à gestação podem continuar ativas. Nos casos de diabetes gestacional, recomenda-se realizar 15 a 30 minutos de atividade diária, em bicicleta ergométrica, ou caminhadas leves à moderadas, dependendo das orientações dos profissionais de saúde especializados.

Alimentação e dieta para diabetes na gravidez

A terapia nutricional é a primeira opção de tratamento para a maioria das gestantes. A dieta para diabetes gestacional evita o ganho excessivo de peso pelas gestantes, pode ajudar a diminuir o risco do excesso de peso do feto e de complicações no parto.

Tal dieta deve ser levada bastante à sério e a mesma deve ser programada pela nutricionista que acompanha o desenvolvimento de sua gravidez!

De maneira geral, a ingestão de carboidratos deve ser restrita a menos de 42% das calorias diárias, com o restante distribuído entre proteínas e gorduras. Essa restrição de carboidratos é importante, pois possibilita um melhor controle glicêmico após as refeições, menor necessidade de adição de insulina, menor incidência de desproporção do peso fetal e de parto cesariana.

Além disso, os carboidratos complexos e com baixo índice glicêmico: grãos e cereais integrais (e os produtos preparados com eles) devem ser priorizados, afinal, são ricos em fibras, vitaminas e minerais. O valor calórico total da dieta é distribuído em três refeições maiores e dois a três lanches por dia. As gestantes obesas podem eliminar os lanches, dependendo da orientação.

Dietas muito restritivas (com menos de 1.500 kcal por dia) podem induzir a cetose, caracterizada por um aumento excessivo de corpos cetônicos, compostos gerados pela queima das gorduras, em uma alimentação reduzida em carboidratos, que podem ser tóxicos, por isso estas dietas não são recomendadas para mulheres grávidas.

Já as dietas com restrição calórica moderada (1.600 a 1.800 kcal por dia) não acarretam cetose e são efetivas no controle do ganho de peso materno e no controle glicêmico. A ingestão mínima de carboidratos recomendada na gestação é de 175 g por dia.

No dia a dia, a mulher grávida com diabetes gestacional deve evitar alimentos com altos níveis de açúcar como os carboidratos refinados encontrados nos doces, refrigerantes, pães brancos, bolos e massas com farinha branca.

O diabetes gestacional é uma alteração metabólica que pode ser corrigida com uma dieta baseada em legumes, verduras e frutas, cereais, massas, pães, biscoitos e bolos integrais, leguminosas como os feijões, grão de bico e ervilha, proteínas magras como as carnes vermelhas com pouca gordura, frango sem pele e pescados, além dos produtos lácteos com pouca gordura (leite desnatado, queijos brancos e iogurtes naturais).

As refeições devem ser realizadas em porções pequenas várias vezes ao dia e a ingestão de água não pode ser negligenciada, para auxiliar o trabalho do metabolismo que é intenso durante a gestação, além de prevenir a desidratação.

Apesar do diabetes mellitus gestacional representar alguns riscos à gestante e ao bebê, um tratamento bem planejado que inclui dieta, prática de exercícios físicos e medicação específica quando necessário pode proporcionar uma gravidez saudável e sem grandes intercorrências.

O rastreamento e diagnóstico do diabetes mellitus gestacional deve ser realizado pelo médico obstetra durante o acompanhamento pré natal e o tratamento planejado e executado em parceria com a nutricionista, o psicólogo e o profissional de educação física, reduzindo assim os riscos de complicações à saúde da mãe e do bebê e ampliando as possibilidades de uma gestação tranquila.

Referências:

  1. Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes 2017-2018 / Organização José Egídio Paulo de Oliveira, Renan Magalhães Montenegro Junior, Sérgio Vencio. Vários autores. São Paulo: Editora Clannad, 2017. Disponível em: https://www.diabetes.org.br/profissionais/images/2017/diretrizes/diretrizes-sbd-2017-2018.pdf
  2. Oliveira, E.C; Melo, S.M.B; Pereira, S.E. Diabetes mellitus gestacional: uma revisão de literatura. Revista Científica FacMais, Volume V, Número 1. Ano 2016/1º Semestre. ISSN 2238-8427. Disponível em: http://revistacientifica.facmais.com.br/wp-content/uploads/2016/06/6-%2520Diabetes%2520Mellitus%2520Gestacional%2520-%2520uma%2520revis%25C3%25A3o%2520da%2520literatura.pdf
  3. Weinert, L.S. et al. Diabetes gestacional: um algoritmo de tratamento multidisciplinar. Arq Bras Endocrinol Metab. 2011;55/7. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/abem/v55n7/02.pdf

Escrito por

Carla Lizandra

Nutricionista com CRN 44307 formada em Nutrição pela Universidade Presbiteriana Mackenzie

Cursos intensivos de extensão em Nutrição Clínica Aplicada e Personal Diet Pós graduanda em Nutrição Clínica: do Home-care ao Hospital

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